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Sábado, 2 de Junho de 2012

Passaporte


Mostrar a bicicleta é um clássico, e eu não sou assim tão original (ou nada mesmo). Anyway, este velocípede é um motivo de orgulho e a fotografia foi requerida por algumas famílias por isso aqui está, com toda a pompa e circunstância. Os sacos laterias são de uma tremenda utilidade para o trasnsporte de toda a série de merdas, sobretudo compras de supermercado. E na dianteira instalei isto que é um suporte para um cesto, que eu acabei por não colocar porque a coisa assim dá para transportar malas de viagem, pequenos móveis e outros objectos que se encontrem na rua (sim, cá podemos mobilar toda uma casa apenas com coisas que se encontram na rua - e material do bom, posso desde já afiançar). E é que sem ela, a bici, sou ninguém na Holanda. Impensável andar ou gastar dinheiro em transportes ou ter que esperar. Sem elas é como se nos faltasse uma perna ou andássemos nus, uma sensação péssima e universal - qualquer que já tenha vivido aqui uns tempos e tenha andado durante um período sem uma sabe bem do que falo. E é que 'apois' lhes ganhamos uma afeição muito particular, que há-de ser aquela que o portuga em geral sente pelo seu carro, particularmente aqueles fulanos que se entretêm a lavar, secar, aspirar e polir o automóvel durante todo o fim-de-semana (em fato-de-treino). Toda a gente tem um vizinho assim. Em contrário, as bicicletas cá são seres de uso e não são para tratar bem. Prendem-se a qualquer arbusto ou poste, estacionam-se em sítios proibidos, servem para dar boleia a pessoas (olá Za!), transportar tudo e mais um par de botas e, muito importante, são elas que nos aturam quando já vamos bêbedos, aos ziguezagues, para casa. E são elas que nos familiarizam com a cidade, coisa muito importante para nós expats. Uma bicicleta em amesterdão é um passaporte e uma identidade colectiva.

Sexta-feira, 1 de Junho de 2012

A forma que nos dá o corpo

Arrastou a carcaça como pôde até ao espelho. E depreciou, horrorizada, pela milésima ocasião, o seu próprio duplo queixo, a flacidez dos antebraços e a proeminência abdominal. Prometeu, tal como todas as outras, emagrecer. É claro que a resolução lhe carcomeu mais um quinhão do amor-próprio. Ela deveria estar acima dessas frivolidades todas, afinal querer emagrecer é para as fúteis, para as desocupadas e para as costureirinhas que lêem a cosmopolitan, a gente e a revista maria. Cansada de atafulhar os vazios com pão, bolachas e manteiga de amendoim, vergou-se à renúncia dos açúcares, hidratos e gorduras trans, como um mártir cumpre a flagelação costumada - sabia que no final valeria a pena. Nem eram tanto os olhares masculinos que a recompensavam mas antes a satisfação de, ao menos, ser dona e senhora dessa parte visível: de si, o corpo, que se oferece à visão pública, moldado que foi das partes que estorvam, manipulado com a destreza que falta às outras, as fúteis, as desocupadas e as costureirinhas, votadas à eterna leitura de revistas femininas, guias de auto-ajuda e blogues de beleza e vida saudável. Desprezava as conversas de café das colegas de trabalho e as suas dúvidas existenciais e miudinhas acerca de balanças, calorias e dietas instantâneas. Sentia-se pegajosa de as ouvir e nunca lhes confessaria que os meros dois kilos e meio extra que carregava no bojo a incomodavam mais ainda que a elas, pobres desgraçadas, carregadas de várias dezenas de excessos e maridos carecas, barrigudos e de camisas de manga curta às riscas. Ela estava tão acima disso tudo. É tão fácil domar a forma, pensou, basta empregar nesse labor as frustrações que advêm do espírito. Soubessem as outras que é tanto mais fácil perder peso quanto mais se encontrem amargas e insatisfeitas, e a esta hora eram todas uns sacos de ossos auschwitzianos. Mas quem nasce para lagartixa nunca chega a jacaré. Ela não, ela não tinha com que se preocupar - a persistência noutras àreas da sua vida podia escassear mas isto das coisas simples da carne ela controlava. Podia deixar-se ir durante um período mais depressivo mas eis que voltava sempre, gloriosa e muito effortless, aquando do regresso do bom tempo. Nunca deixaria de ser cool, isso não, e effortless é cool, pelo menos é o que se diz por aí nos novos media, dos blogues e sites de cultura urbana às plataformas e redes sociais. Pode não se ter mais nada mas da forma que nos dá o corpo não se abdica. Porque, já dizia o outro, (um)a imagem vale mais que mil palavras.



Quarta-feira, 30 de Maio de 2012

Kriterion

O cinema mais bonito de Amesterdão.






Onde fiz a minha primeira sessão dupla por terras baixas.



E constatei que continuo disposta a casar com o Michael Shannon (aqui em Take Shelter, de Jeff Nichols).
E depois houve um serão iluminado à custa do documentário sobre a vida deste homem.
Marley, realizado por Kevin McDonald.




Terça-feira, 29 de Maio de 2012

Porque "o futuro já começou"

Encontrei-me em 2012 num lugar estranho mas tão comum nos dias que correm: na recta final da corrida dos 20 anos e sem emprego. (...)

O que é facto é que acredito que nada acontece por acaso, e esta minha nova condição abanou-me da cabeça aos pés, no bom sentido. É que depois do sentimento de que fora injustiçada, depois da frustração de sair de uma empresa pela qual dei o litro, depois de muitas interrogações e da sensação de ficar sem chão e rumo, encontrei a energia e a orientação para lutar pelos meus sonhos. Desacomodar-me de um lugar numa empresa traduziu-se numa motivação sem precedentes para melhorar, como pessoa e profissional. Terminar o meu mestrado com bons resultados para ver aberto o leque de opções profissionais numa área com mais oportunidades é apenas o primeiro dos compromissos que firmei comigo própria. O segundo é o empreendedorismo.
“Choose a job you love, and you will never have to work a day in your life” – subscrevo as palavras de Confucius, com que ainda hoje me cruzei no Facebook. É precisamente esse o ponto.
(...)

É que o nosso futuro já começou, e não deveria ser apenas o desemprego a lembrar-nos disso.“If opportunity doesn’t knock, build a door.”Milton Berle (1908-2002)

Este texto, escrito pela minha amiga Margarida, é um motivo de orgulho. Para além disso é um pedaço de prosa com o qual eu não poderia concordar mais. A reflexão mais pertinente para a gente da nossa geração. A ver se ela se entusiasma a escever mais regularmente no seu Porta-Bagagem. E eu com ela, aqui na Labareda (eu sei, também é preciso encontrar tempo!).

Sábado, 26 de Maio de 2012

THIS MUST BE THE PLACE



Home is where i want to be
Pick me up and turn me round
I feel numb - burn with a weak heart
(so i) guess i must be having fun
The less we say about it the better
Make it up as we go along
Feet on the ground
Head in the sky
It's ok i know nothing's wrong . . nothing

Hi yo i got plenty of time
Hi yoyou got light in your eyes
And you're standing here beside me
I love the passing of time
Never for money
Always for love
Cover up + say goodnight . . . say goodnight


Home - is where i want to be
But i guess i'm already there
I come home -she lifted up her wings
Guess that this must be the place
I can't tell one from another
Did i find you, or you find me?
There was a time before we were born
If someone asks, this where i'll be . . . where i'll be

Hi yo we drift in and out
Hi yo sing into my mouth
Out of all tose kinds of people
You got a face with a view
I'm just an animal looking for a home
Share the same space for a minute or two
And you love me till my heart stops
Love me till i'm dead
Eyes that light up, eyes look through you
Cover up the blank spots
Hit me on the head ah ooh

...



Vou vê-los, pela primeiríssima vez, o mês que vem, no Ziggo Dome em Amesterdão graças a uma menina especial <3

Sexta-feira, 25 de Maio de 2012

sometimes, when it gets serious,

the only fucking person that could fucking understand me is not here anymore.

Terça-feira, 22 de Maio de 2012

revelação aleatória que ainda não é do conhecimento dos leitores. e uma fotografia.

quando comecei este blogue era uma pessoa muito séria que queria escrever coisas igualmente sérias. e tentei, a sério que tentei. tentei escrever sobre crimes (!), política, leis, cinema e coisas que me pareciam importantes e respeitosas. ao menos nunca me aventurei a escrever sobre literatura (mas gostava). obrigada deus por esse esse rasgo de lucidez que me fez ter noção do ridículo. e então deambulei, deambulei muito tentando evitar-me, que é uma coisa em que me tornei especialista, e seguramente há muito tempo. tornei o blogue privado, depois impus-lhe um fim, depois tornei-o público outra vez, entre outras maldades. é uma frase batida mas não sou eu que volto ao blogue, ele é que me regressa. como uma praga ou uma doença crónica, não há nada que eu possa fazer para extinguir a coisa de uma vez por todas. quando percebi por fim que os meus amigos mais próximos gostavam de vir aqui ler-me de vez em quando e que a cada vez que o fazia lhes chegava, de facto, isso pareceu-me razão suficiente para continuar. aquelas 4 ou 5 pessoas que cá vêem sempre são (d)as mais importantes da minha vida e então deixei-me de merdas. escrevo sem agenda sobre "coisas" e pronto, embora admita que gostasse de ter uma e de preferência que fosse algo mais que as minhas urgências do momento.  muita gente tem dito que a nossa relação com a memória tem muito de ficção e eu acredito piamente nisso. gosto de histórias - das factuais e das que fantasio - gosto de memórias e fantasmas e gosto de misturar tudo. e agora aqui vai uma confissão, uma mesmo boa para pôr numa daquelas correntes que consiste em fazer listas acerca de coisas aleatórias "que os leitores ainda não saibam acerca de nós". uma das coisas que mais aprecio num homem é que me conte histórias. e em não estando em face de um mostrengo, um punhado de boas histórias - e bem contadas - é coisa susceptível de me fazer apaixonar. tudo se me resume a isto, ouvir e contar estórias (mas também gosto de as viver. sim, sobretudo de as viver).

agora vejo-me cada vez mais com uma coisa "pessoal" em mãos (tão lindas estas categorizações) e tenho que render-me a esta inevitabilidade de escrever sobre mim, para mim, ainda que para os outros. não acho que o que escrevo seja de grande interesse para os outros (tirando os mimosos 4 ou 5 que têm nisto uma pseudo extensão da nossa amizade) e por isso é que não posso dizer que escreva exactamente "para eles". isto é uma escrita do ego, ainda que eu não o quisesse, mas quanto a isso nada a fazer. se não podes vencê-los junta-te a eles. e que bom que é terminar um texto destes assim de chofre com um sábio provérbio português deste calibre.

e para isto ser mesmo bom ainda junto uma fotografia a preto e branco que tirei no outro dia à rua e ao céu.


Bom, pelo menos há jardim

Quatro horas da tarde em Amesterdão e o meu jardim já não tem sol. Porca miséria.

Sexta-feira, 18 de Maio de 2012



acho que já andava cansada de lá trabalhar e por isso sempre um humor de cão se apoderava de mim. todos sabem que se assim estou é deixar-me até que a vida mude e eu com ela, ou o contrário. não sorria, já não queria saber. achava tudo e todos ridículos, desinteressantes, suspirava com novas paragens, novos nomes e cheiros. tudo me aborrecia, até o cinema. mas depois há sempre uma cara nova que regressa, uma revigorada conversa, qualquer súbita inspiração. nesse dia foi esta cena que me trouxe de volta à vida. não quero casar-me mas claro, nos meus sonhos, caso neste vestido (e com alguma sorte nasço a mesma pessoa mas no corpo desta mulher).

Carta de apresentação

Comecei por dançar flamenco. Depois formei-me em teatro. Trabalhei profissionalmente em teatro mas também em cinema e em sushi (não sem ter experimentado o call-center). Tirei um curso profissional de jornalismo. Ultimamente tenho-me dedicado à moda. Vivi e trabalhei em vários cantos do país e agora vivo fora dele (I amsterdam). Dos mil-e-um-interesses, vou-me focando a par e passo no que mais me realiza (embora goste de me perder por aí). "Os de sempre" continuarão a acompanhar-me nesta jornada e, quiçá, companheiros novos também. Este blogue serve-me para arrumar a cabeça e comunicar com pessoas de quem gosto.



[Se quiserem contactar-me, podem fazê-lo para este e-mail:

asiul.snitram@gmail.com]



Aviso à navegação

Parecendo que não isto dá-me trabalho. Peço o respeito que se deve quando se está em casa alheia. O blogue é público mas por paradoxal que seja, é íntimo, e é meu. Por isso os meus posts podem ser reproduzidos mas sempre com o respectivo link. Obrigada.

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